Maurice Blanchot (1907-2003)
Trata-se de um escritor, filósofo e ensaísta francês, com protagonismo na crítica pós-estruturalista e proposições de análise de obras literárias e arte em geral. Por meio de sua obra, que abrange filosofia, ficções (L'Arrêt de mort, de 1948) e ensaios (Le Livre à venir, de 1959), e a partir de uma vida mais reservada e de um pensamento hermético, ele influenciou profundamente nomes como Foucault, Rancière e Derrida. Em seu trabalho, investigou a essência de elementos literários como o ser, a linguagem, a morte, o desastre e a agonia, bem como o papel do processo criativo da arte.
Em uma de suas obras de maior destaque, O Espaço Literário (do original L'Espace littéraire, publicado em 1955), o espaço não é referencial ou geográfico, mas um construto onto-ontológico. A literatura — e o ato da escrita — não deve ser analisada como uma representação do espaço físico do autor, mas como a criação autônoma e, também, a libertação da criatividade por meio de elementos como o espaço: “A obra é círculo puro onde, enquanto escreve, o autor expõe-se perigosamente à pressão que exige que ele escreva, mas também se protege dela. Daí resulta – pelo menos em parte – o júbilo prodigioso, imenso, que é o de uma libertação, como diz Goethe, de um confronto face a face com a onipotência solitária do fascínio […]” (Blanchot, 2011, p. 48).
Segundo Blanchot o olhar crítico deve focar no exílio da palavra, na forma como a narrativa silencia o mundo real para instituir sua própria topografia da incomunicabilidade e do espaço, ou seja, é preciso que o autor se comunique em sua obra através da espacialidade. O filósofo francês utiliza exemplos de autores como Rilke, Kafka e Mallarmé para a construção do seu argumento central.
A abstração do seu conceito de espaço torna a aplicação metodológica desafiadora, como é possível observar na afirmação do autor sobre o papel do espaço: compreendido como um mundo criado pelo eu lírico do poeta ou romancista, em sua solidão criativa, ele precisa se conectar com o leitor para o alcance de seu sentido: “[A] obra somente é obra quando ela se converte na intimidade aberta de alguém que a escreveu e de alguém que a leu, o espaço violentamente desvendado pela contestação mútua do poder de dizer e do poder de ouvir” (Blanchot, 2011, p. 29).
Por meio de diferentes exemplos e (topo)análises, o autor exercita o encaixe da materialidade topográfica da obra em um modelo ontológico dos vazios e sentidos de cada poeta, romancista e autor, valendo-se de seus textos, versos, personagens e construções de mundos literários.
O referencial filosófico e crítico-literário de Blanchot é amplamente explorado em estudos, tanto em tentativas de replicação de seu método analítico quanto em proposições de limites e inovações para esse método. Exemplos de tais pesquisas são o livro de Philippe Mesnard, Maurice Blanchot: le sujet de l'engagement, e trabalhos acadêmicos como a tese de doutorado de Adriano Henrique de Souza Ferraz, defendida em 2018, com o título “Para uma Estética do Desaparecimento em Maurice Blanchot: a diferença interna da morte, a forma vazia do tempo e como Gilles Deleuze empregou estes conceitos”.
