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Anne Cauquelin

 

   Anne Cauquelin é uma renomada filósofa e ensaísta francesa, professora emérita da Universidade de Paris X-Nanterre, cuja trajetória intelectual se destaca pelas profundas reflexões nos campos da semiótica, da estética, da comunicação e da teoria, história e filosofia da arte. Suas obras e escritos possuem particular influência na geopoética e na geoliteratura do Brasil por meio de diálogos com a filosofia, os estudos literários e as análises artísticas em obras como No ângulo dos mundos possíveis, Arte contemporânea: uma introdução e Teorias da Arte.

Cauquelin consagrou-se por desconstruir categorias estéticas e científicas naturalizadas e estabelecidas em diferentes campos do saber, questionando como a sociedade ocidental percebe, constrói e consome as imagens ao seu redor e, mais do que isso, como é possível tanto agenciar como incorporar tais conceitos em inovadoras interpretações do mundo. Em um exercício constante de aliar o rigor filosófico a uma prosa ensaística provocadora, a autora estabelece diálogos fundamentais entre a história da arte, a percepção sensorial humana e a constituição filosófica e política do espaço.

     Em A Invenção da Paisagem, obra de maior alcance da autora no Brasil, Cauquelin defende a tese radical e seminal de que a paisagem não é um dado natural intrínseco ao mundo físico, mas sim uma construção cultural milimetricamente orquestrada, uma verdadeira invenção estética. Em outras palavras, para a filósofa, há uma distinção epistemológica basilar entre "natureza" (o ambiente biológico, físico, caótico e geológico) e "paisagem" (o olhar humano mediado por relações e emoções, estruturado e codificado sobre esse meio). Em suas próprias palavras: “Se existe um sentimento de satisfação conferido pela paisagem, é que existe uma forma que espera uma satisfação, um preenchimento” (Cauquelin, 2007, p. 119), e ainda complementa que “[...] trata-se aqui de adequação de um modelo cultural ao conteúdo singular que é apresentado” (Cauquelin, 2007, p. 119).

   A autora propõe, de diferentes formas, que a análise do espaço, seja na literatura, seja nas artes visuais, deve ser invariavelmente compreendida através desse prisma da mediação cultural, rejeitando qualquer ingenuidade perceptiva ou contemplação desinteressada diante do ambiente. Ao ler ou descrever o espaço, o escritor atua, portanto, como um reprodutor de um complexo sistema de signos visuais historicamente herdados da pintura. Além disso, pesquisadores utilizam sua lente teórica para estudar como narrativas literárias e obras de arte contemporâneas desafiam ou reproduzem as perspectivas hegemônicas de apropriação do território.

    O grande desafio de aplicar essa concepção da "paisagem inventada" na construção de versos e prosas contemporâneas reside em romper com a dependência histórica do enquadramento renascentista que a autora brilhantemente descreve. Como a pós-modernidade e o desenvolvimento do capital dissolveram o "quadro" tradicional através de urbanizações fragmentadas, metrópoles caóticas e não-lugares, a literatura enfrenta o árduo obstáculo de representar um espaço que perdeu sua centralidade geométrica e sua contemplação apaziguadora.

Exige-se, portanto, uma renovação formal capaz de traduzir em palavras uma paisagem que agora é imersiva, difusa e desprovida de ponto de fuga. Adeptos acadêmicos nas áreas de Geografia, Arquitetura, Filosofia e Literatura recorrem sistematicamente aos pressupostos de Cauquelin para desnaturalizar as noções de espaço público e combater as visões ingênuas ou superficiais no planejamento urbano, no arranjo rural, nas projeções pueris da ocupação do espaço, etc.

   Alguns trabalhos de destaque que utilizam as teorias e problematizações de Anne Cauquelin são:

  • WACHTER, Adriane Schrage. Tempos sobrepostos em imagem: considerações acerca do lugar como produtor de experiências. 30/05/2021. 218 f. Doutorado em Artes Visuais. Instituição de Ensino: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Biblioteca Depositária: Instituto de Artes.

  • SALES, Janaina Jenifer de. Natureza, Infância e Metalinguagem em Charles Baudelaire e Manoel de Barros. 27/04/2023. 178 f. Doutorado em Letras. Instituição de Ensino: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Assis), Assis. Biblioteca Depositária: FCL-Assis.

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