Conversações: Urbanosfera e Ecumenópole
- Gilvan Araújo

- 27 de jun.
- 16 min de leitura

Urbanosfera
A ideia de uma urbanosfera traz consigo a reflexão mais ampla do fato citadino e do fenômeno da urbanização. Como fato, a cidade se configura tal qual um recorte de algo maior, multifacetado e complexo, tendo seus limites e características delimitadas de acordo com critérios específicos. Já o fenômeno urbano é um processo, um extensio continuum, com o espraiamento do modo de vida na cidade como sua essência, da escala mínima de uma vila até as grandes metrópoles e concentrações megalopolitanas.
A facticidade urbana, a cidade como a entendemos, é uma ideação, o recorte analítico frente à totalidade fenomênica da urbanização. Este olhar sobre o urbano é inelutável, tendo em vista que um vislumbre de todas as nuances da concretude e simbolismo, sobrepostos na urbanidade, seria impossível de se colocar em prática, retirando, deste modo, o caráter enciclopédico para uma objetivação de maior aproximação das particularidades de um determinado recorte urbano.
Pensar a urbanosfera, portanto, é colocar em relevo um modo de vida, uma rota histórica seguida pela humanidade nos últimos séculos. Na cidade altera-se o consumo e a produção; as significações e costumes se agregam e integram, nem sempre de forma harmônica, como é possível observarmos nos dias atuais nas megacidades e aglomerados urbanos. As terminologias intensificam-se na proporção equivalente do aumento do fenômeno urbano.
Esta perenidade da cidade e do fenômeno urbano fomentou, ao longo da história, teorias acadêmicas e incursões literárias, em ricos ensaios e perscrutações e elaborações poéticas e prosaicas sobre o sentido da existência na urbanidade. Há as teorias citadinas clássicas e medievais como prospectos da redenção humana, na direção de uma idealização do existir, individual e coletivo, envolvendo questões morais e políticas; ensaios e coletâneas que se propõem a debater a questão urbana e também, do ponto de vista mais imaginativo, as geografias fantásticas na literatura e na sétima arte, em número cada vez maior de difusão e alcance do público em geral.
A cidade, a metrópole, o mundo conurbado, a expansão das megalópoles, o desenfreado crescimento das metrópoles ao redor do mundo, são alguns elementos que embasam o debate a respeito da urbanosfera, que gestou a ideia de uma ecumenópole, hipotética em sua concreção, mas cada vez mais presente como vislumbre de nossa destinação como espécie, ideal ou cacotopicamente.
A metrópole é, na contemporaneidade, a culminância deste cenário, ou seja, da inerência pendular entre o fenômeno e o fato urbano. O aglomerado populacional é uma marca de nosso tempo, congregando em si os traços de avanço da urbanização com uma inalcançável miríade de singularidades urbanas no interior da macroescala metropolitana.
O indivíduo e a multidão
Sobre esta vivência singular do homem metropolitano, Georg Simmel problematiza: “Por conseguinte, o homem metropolitano, de que existem inúmeros gêneros individuais, desenvolve uma capacidade protetora contra a profunda perturbação com que o ameaçam as flutuações e descontinuidades do ambiente externo.” E o autor ainda faz considerações sobre o aspecto emocional da vida na metrópole: “Em vez de reagir emocionalmente, o sujeito metropolitano reage principalmente de modo racional, pelo aprofundamento da sua consciência e a criação de uma reserva mental que é, por sua vez, resultado da primeira.” Por fim, há o posicionamento, por parte de Simmel, em direção ao caráter de afastamento dos substratos emocionais do indivíduo em meio à multidão e coletividade metropolitanas: “Assim, a reação da pessoa metropolitana a tais acontecimentos é direcionada para um domínio da atividade mental menos sensível e mais afastado das zonas mais profundas da personalidade.” (SIMMEL, 1976, p. 34).
Simmel não nega, no entanto, as benesses de consumo e acesso a serviços que a vida na cidade pode trazer aos indivíduos que nela vivem. O que o autor trabalha como principal ponto de debate é o que denomina como atrofiamento da subjetividade, em meio à hipertrofia do objetivismo em meio à metrópole:
De um certo ponto de vista, a vida fica infinitamente mais facilitada no sentido de que os estímulos, os interesses e a afetação do tempo e da atenção surgem de todos os lados e conduzem-na por um fluir que pouco ou nada exige dos indivíduos. De um outro ponto de vista, porém, a vida é cada vez mais composta por elementos da cultura impessoal, objetos e recursos que suprimem idiossincrasias e interesses pessoais específicos. Em resultado, para que sejam conservados estes interesses pessoais, têm que surgir novas ligações, particularidades e formas de individualização, cujo excesso é a condição fundamental para o seu reconhecimento, até mesmo por parte dos próprios indivíduos. A atrofia da cultura subjetiva, resultante da hipertrofia da cultura objetiva, é uma das razões da repulsa amarga que os defensores do individualismo extremo, na senda de Nietzsche, dirigem contra a metrópole. (SIMMEL, 1976, p. 43).
De forma pendular e na dialética da urbanidade, há em Simmel a relação íntima das expressões individuais na totalidade metropolitana. A grande cidade se torna um cadinho de expressões multifacetadas, em diferentes linguagens, formadas pelos mais diversos membros da coletividade em que os indivíduos se encontram. Este caráter dual e intrínseco da metrópole fará parte de discussões e problematizações sobre a cidade, das questões íntimas e individuais às relações interpessoais da multidão citadina.
Se a cidade é o ápice da vida moderna e a curva de expansão da industrialização, com a projeção da família média em sua casa, filhos e acessos a serviços urbanos, há, em contrapartida, reflexões que vão na direção oposta a este quadro. O flâneur de Charles Baudelaire (2006) ou o sentimento de dépaysement trabalhado por Sacre (1995) são amostras desta análise do urbano, numa perspectiva de deslocamento subjetivo da pessoa em relação à sua existência na cidade.
Baudelaire inquieta-se e nos propõe igualmente uma inquirição sobre a urbanidade em seu sentido existencial: “Assim ele vai, corre, procura. O quê? Certamente esse homem, tal como o descrevi, esse solitário dotado de uma imaginação ativa, sempre viajando através do grande deserto de homens, tem um objetivo mais elevado do que o de um simples flâneur, um objetivo mais geral, diverso do prazer efêmero da circunstância.” O flâneur é o perambular no ermo urbano, em afastamento e aproximação, de si e do outro: “Ele busca esse algo, ao qual se permitirá chamar de Modernidade; pois não me ocorre melhor palavra para exprimir a ideia em questão. Trata-se, para ele, de tirar da moda o que esta pode conter de poético no histórico, de extrair o eterno do transitório.” (BAUDELAIRE, 1996, p. 24).
Para Sacre (1995), mais do que a identidade, é preciso que nos atentemos para os processos de deslocamento do indivíduo nos grandes centros. O conceito de dépaysement trabalhado vem ao encontro desta problematização: “Malebranche, prête, mystique, platonicien par le canal de Descartes, substitue au ciel du Monde des Idées de Platon, le Dieu Chrétien de la Révélation.” Podemos até mesmo encontrar um paralelismo entre esta ideia com a já difundida discussão sobre a desterritorialização dos indivíduos e comunidades no mundo atual, a globalidade alcançada pelo movimento dos migrantes e desertores rumo ao sincretismo de uma nova Babel do século XXI: “Notre philosophe, rationnel et mystique, nous invite à passer par le dépaysement, l’abandon du paysage familier, pour atteindre la vérité et nous réaliser nous-mêmes. Il nous invite à déserter et à désertifier notre Umwelt habituelle.” (SACRE, 1995, p. 113).
Tendo como referência a contribuição destes autores, chegamos à urbanosfera integrando em si o coletivo e o individual, a conexão e o isolamento. O homo urbanus entoado por Thierry Paquot (1990) perfaz esta dialeticidade do urbano, da vida na metrópole e da relação pendular entre estar consigo ou em meio à multidão, mesmo quando em nenhum dos casos seja encontrada a singularidade de significância do indivíduo, em sua unicidade ou diversidade existencial.
Estas reflexões sobre a posição e situação do indivíduo em meio à cidade são indispensáveis quando nos propomos a pensar a facticidade e fenomenicidade urbanas. É na conjunção dos pensamentos, ações e transformações logrados pelos indivíduos que a urbanidade ganha sua espessura como coletividade. Portanto, trazer ao centro do debate o indivíduo situado na metrópole, megalópole, urbanosfera e, por fim, ecumenópole, é tanto necessário quanto imprescindível ao debate sobre a curvatura de expansão urbana a que assistimos e da qual fazemos parte.
Ecumenópole
Ecumenópole é uma palavra formada por dois radicais distintos: o primeiro, que é ecúmeno, vem do grego oikoumêne, que significa habitada(o); e o segundo radical também vem do grego, pólis, remetendo à cidade. Neste texto, há a interpretação do termo como uma cidade total, cobrindo todo o território habitável de um planeta, conceito este pensado por Constantínos Apóstolos Doxiádis, arquiteto e urbanista grego, em 1967.
Não há descontinuidade física na ecumenópole; ao contrário, sua extensão é ininterrupta e, mais do que isto, por representar um apogeu técnico e tecnológico da modernidade, sua verticalização é máxima, os meios de transporte são interconectados e os suprimentos estão disponíveis para todos os habitantes, ponto este de maior questionamento sobre esta hipótese levantada pelo autor grego.
Esta condição de urbanização total já foi projetada, imagética e imaginariamente, na ficção científica (as obras voltadas à temática do cyberpunk e suas variações são um bom exemplo) por meio da literatura e cinema, principalmente. Normalmente, a ecumenópole é representada em associação a extremos do espectro do mundo em seu futuro, seja na vertente de deterioração da cidade, em distopias pós-apocalípticas ou, então, no outro ponto das representações, encontramos uma visualização mais asséptica da cidade, não necessariamente com o alcance de suas benesses para todos.
A título de embate destes extremos, podemos trazer algumas considerações próximas neste espectro da urbanização e sua relação com a humanidade. De um lado, há as considerações do urbanista Le Corbusier (1993, 2008) que, em sua maior parte, defende o olhar para o futuro e a promessa da modernização como dádiva da racionalidade técnica do ser humano, consumada na vida urbana. Na outra vertente, temos a genealogia da cidade empreendida por Lewis Mumford (2004) com menos penduricalhos e ufanismos urbanistas, assim como Doxiádis (1967), num esforço de desvelamento e desconstrução da trilha urbana em que nos encontramos.
A cidade total, em seu sentido romântico de concretização do sonho moderno, possui prospectos ao redor do mundo. Centros comerciais como o World Trade Center e o futurismo dos prédios em Chicago nos EUA, as Palm Islands nos Emirados Árabes Unidos, as Avenidas Brigadeiro Faria Lima e Luís Carlos Berrini em São Paulo, as teorizações da Staatliches Bauhaus, dentre outros exemplos e locações.
Estas locações possuem ressonâncias arquitetônicas e urbanísticas com O Manifesto Futurista de 1909. Escrito por Filippo Tommaso Marinetti, entoava o discurso do embate ao passado, da ultrapassagem do tempo e da conquista do espaço, o absoluto como destino humano: “8. Nós estamos no último promontório dos séculos!... Por que nós deveríamos olhar para trás, quando o que queremos é atravessar as portas misteriosas do Impossível? Tempo e Espaço morreram ontem. Nós já vivemos no absoluto, porque nós criamos a velocidade, eterna, onipresente.” (MARINETTI, 1909, p. s/n). O canto e encanto do futuro podem ser observados nas palavras de Le Corbusier (2008), quando este avista, mesmo que ainda distante, um equilíbrio entre interesses e o desenvolvimento tecnológico:
O vapor e depois a eletricidade, o motor a explosão, inflando desmedidamente a força do bíceps ou a da parelha, abriram a civilização da máquina. Até onde a força se desenvolverá e quando alcançará uma posição de equilíbrio? O interesse do dinheiro ou o interesse do espírito apoderaram-se das invenções pequenas ou grandes: revessas de manipulações industriosas ou das hesitações de uma clientela sempre reticente. Chegará o dia, no entanto, que trará, por exemplo, exatamente em relação a esse problema, sua colheita de maturidade: a estrada de ferro (que fomentara a civilização da máquina) será suplantada pela rodovia destinada às distâncias pequenas, pelo avião que servirá para os grandes percursos. (LE CORBUSIER, 2008, p. 20).
Nesta citação estão presentes elementos das anunciações industriais modernas, na chegada do século passado. Os croquis de Antonio Sant'Elia e as ruas e prédios vistos em Metrópolis (1927), de Fritz Lang, e os sonhos de conquista do mundo, e além deste, escritos por Júlio Verne. O passado é visto como reflexo do atraso, a poesia deve se curvar à retitude da forma como modulação do futuro que nos aguarda: “Criou-se um artificioso mundo do espírito, no qual este, deixando de lado as alegrias da invenção, da criação, só se satisfaz com o culto da lembrança.” (LE CORBUSIER, 2008, p. 21).
Numa posição mais distante à do urbanista francês está Lewis Mumford (2004) quando diz que: “Os novos mestres da sociedade desdenhosamente voltavam as costas ao passado e a todos os ensinamentos acumulados pela história, dedicando-se à criação de um futuro que, segundo a sua própria teoria do progresso, seria igualmente desprezível, uma vez que também houvesse passado – e seria arrasado de maneira igualmente impiedosa.” (MUMFORD, 2004, p. 484). A crítica do autor aos olhares dos urbanistas para a cidade perfeita é marcante; se Le Corbusier (2008) enaltece a máquina em seu caminhar revolucionário, Mumford (2004, p. 509) nos lembra de como há uma divisão desigual dos frutos colhidos pela era industrial nas cidades:
As casas costumavam ser construídas bem junto das usinas siderúrgicas, fábricas de tintas, gasômetros ou cortes ferroviários. Era muito frequente serem construídas em terras cheias de cinzas, vidros quebrados e restos, onde nem mesmo a grama podia deitar raízes; podiam estar ao pé de uma pirâmide de detritos ou junto de uma enorme pilha permanente de carvão e escória; dia após dia, o mau cheiro dos dejetos, o negro vômito das chaminés e o ruído das máquinas martelantes ou rechinantes, acompanhavam a rotina doméstica.
Este ponto escalar é de importância ímpar pelo fato de assistirmos, ao menos desde a belle époque e o modernismo do início do século XX, a um retorno retórico e técnico à monumentalização, no movimento contrário às aglomerações urbanas, em sua maior parte com precárias condições de vida aos menos favorecidos que habitam os grandes centros. Uma interessante amostragem deste cenário da explosão urbana está nos processos de gentrificação, cada vez mais comuns, especialmente quando na esteira do avanço da reificação do espaço urbano há, normalmente, uma estratificação de quem irá usufruir destas transformações.
Viver em grandes cidades tem sido uma experiência do sobreviver em um espaço mínimo, quadrático e limitado. Ao mesmo tempo, nas grandes metrópoles do mundo, templos e monumentos clássicos e neoclássicos, futuristas ou pós-modernos se avolumam em sua beleza funcional. A limitação da existência no cubículo, casebre ou cortiço também é perpassada, muitas vezes, pela ufania a estas localidades, fortalecidas por um espesso e secular discurso da busca pela confirmação histórica da redenção técnica e tecnológica, propiciadas pelo pensamento racional.
Podemos então, a partir da vista entre estes espectros da cidade do porvir, trazer algumas das reflexões de Doxiádis (1967) sobre a ecumenópole (ecumenopolis, no escrito original). Fazendo uso da escala de Kardashev, que trata da curva de desenvolvimento técnico e tecnológico pela humanidade, o autor grego irá desenvolver diferentes argumentos sobre a hipótese da cidade total ou, ao menos, da expansão máxima da urbanidade como modo de vida do ser humano.
Quando Doxiádis utiliza a expressão wrong cities for the future já é possível alinhar seu pensamento às considerações de Lewis Mumford (2004) sobre o enquadramento das cidades do futuro em nosso presente. Em suas colocações, o autor é assertivo sobre este debate: “The usual statement, that we do not think about the future and do not do anything about it, is only half right when we apply it to cities. We do not think about them in the future sense, but we do a lot about them; we actually build them the wrong way.” (DOXIÁDIS, 1967, p. 4). E o tom de sua crítica fica ainda mais incisivo quando a análise se volta para o caráter a-humano ou extra-humano vigente nos grandes planejamentos urbanos modernistas ou futuristas, comuns ao longo do século XX: “The landscape of the modern city is becoming extra-human, even inhuman. An idea of such landscape is given us by the highways built to decongest the central city.” (DOXIÁDIS, 1967, p. 5).
Sobre a estrutura e a forma da ecumenópole, Doxiádis nos apresenta as diretrizes para tal empreendimento urbano, com foco na interconexão entre pessoas, serviços e as concreções da cidade: “This last statement opens the question of the structure and form of the cities of the future. If they are to be interconnected in major complexes, does this mean that they will grow into vast, continuous built-up areas covering whole regions and gradually the whole earth? Not at all.” Mas o autor faz ressalvas para esta implementação da ecumenópole como possibilidade: “First, to ensure the biological survival of the city itself we need much more open space (provisioned with food and other goods) than we need built-up area. Second, there are important economic and geographic forces that will shape the cities of the future into continuous but not compact complexes, looking very much like huge networks woven in branches of different shapes, dimensions, and importance.”
E a argumentação do autor eleva-se em tom de questionamento quando os recursos essenciais são colocados em pauta. A estética das cidades futuristas, muitas vezes, deixa de levar em consideração a escassez dos insumos essenciais e imprescindíveis para a sociedade. Questões envolvendo a qualidade, uso e disponibilidade do ar, água e alimentos fazem parte das preocupações de órgãos públicos e privados, fóruns e debates locais, nacionais e globais, em busca de soluções para estes desafios para as cidades no geral e às metrópoles em particular:
It is already quite clear, and our research has confirmed, that three great forces will shape the cities of the present into the cities of the future. These, in order of importance, are the attraction of existing urban centers, the attraction of major lines of transportation, and the aesthetic forces attracting people to the sea, lakes, rivers, and other places of scenic beauty. In addition to these forces, other factors that will influence the formation of our cities include the existence of open plains, indispensable for industrial plants and major institutions; the existence of ample resources of fresh water; and climate. Shaped by all these forces, the structure and the form of the cities to come will differ from place to place. (DOXIÁDIS, 1967, p. 14-15).
A preocupação de Doxiádis (1967) encontra eco no que foi engendrado como caminho, mas não necessariamente seguido, pela Carta de Atenas de 1933. Naquele documento, a circulação, a priorização da funcionalidade urbana para atender às necessidades, concretas e simbólicas, humanas e, principalmente, a harmonia escalar entre o macro e o micro urbano, parecem ter ficado distantes de sua realização desde que foram apresentados ao mundo os princípios do que deveria ser um novo olhar para a urbanidade e a vida nos centros urbanos.
No tópico 76 da Carta, há a chamada "O dimensionamento de todas as coisas no dispositivo urbano só pode ser regido pela escala humana" e, seguindo esta premissa, é colocado que: “A medida natural do homem deve servir de base a todas as escalas que estarão relacionadas à vida e às diversas funções do ser.” (LE CORBUSIER, 1993 [1933], p. s/n). E na máxima 79 do mesmo documento é dito que: “O ciclo das funções cotidianas – habitar, trabalhar, recrear-se (recuperação) – será regulamentado pelo urbanismo dentro da mais rigorosa economia de tempo, sendo a habitação considerada o próprio centro das preocupações urbanísticas e o ponto de articulação de todas as medidas.” (LE CORBUSIER, 1993 [1933], p. s/n).
Estas ideações sobre o urbanismo e a cidade erigida à revelia do existir humano parecem um pouco distantes quando olhamos para a contemporaneidade, para os monumentos urbanos em planificações que vão da Berlim e o Volkshalle de Albert Speer para o Terceiro Reich às prediações neoclássicas de Pierre Charles L'Enfant no Distrito de Colúmbia, passando pelos anseios ao futuro nacional nas retas e curvas funcionais do Plano Piloto brasiliense.
Nestes exemplos, transformados em realidade ou não, observa-se com clareza o distanciamento do âmbito cotidiano do viver na cidade, em prol da contemplação jactante de templos e monumentos que, em grande parte das ocasiões, se apartaram das ligações emocionais, culturais e identitárias das cidades em que se encontram, principalmente quando o olhar se expande à população metropolitana em sua totalidade, de bairros nobres às grandes favelizações periféricas.
A escala da vida urbana retorna como principal ponto de problematização para a cidade do futuro; os principais planos e teorias sobre a urbanidade propuseram vultosas construções e vias de locomoção aceleradas, mas, ao mesmo tempo, deixaram a desejar em questões como a circulação cotidiana e os acessos e necessidades proximais e imediatas das pessoas, em suas casas e bairros, na cotidianidade do viver urbano:
Ecumenopolis, in order to operate properly, will be structured in a hierarchical way: from the family house, to the small and large neighborhoods, to the human community or basic cell or city, to the metropolis, to the megalopolis, and the other consecutive units that will form the whole systemxiii. Such a hierarchical structure will be imperative for the correct functioning of the parts and the whole. It should be physically expressed so that, by looking at the whole, we can recognize its organization and find our way through it, just as we found our way in the small, well-structured cities of the past, the spirit of which, though not the form, will be retained in Ecumenopolis. The main structure of Ecumenopolis will be universal in expression; neither the rocket ports nor the highways or seaports can have anything local in their general conception and design. But the farther down we go in the hierarchical scale, the more international universal expressions defined by technology will yield to national and local expressions defined by the local natural and cultural values, by topography and climate, by traditions, customs, and habits. Ecumenopolis will be universal in its content and general frame, national or local at its city level, and personal in expression in its homes. (DOXIÁDIS, 1967, p. 22).
A monumentalidade, o afastamento e a distância permanecem; a aclamada mobilidade, a qualidade de vida, a equalização do acesso a recursos vitais na cidade parecem alimentar a retórica do discurso da cidade do futuro, sendo colocados à margem a partir do momento em que tais arautos arquitetônicos, em cimento, aço e vidro, eclodem dos alicerces para o usufruto de um efêmero e fugidio futuro universal e sufragista, inalcançável pela técnica e razão.
A cidade, sem limites
Um dos principais debates contemporâneos sobre a ecumenópole, ou do fenômeno global da urbanosfera à qual e na qual caminhamos, ocorre no sentido de como esta via está sendo trilhada por nós, como coletividade vivente neste mundo. Se há, inegavelmente, um fenômeno de explosão urbana iniciado a partir dos primeiros ciclos de industrialização, também é verdade que tal processo ocorreu, e ainda está em curso, de forma desigual ao redor do globo.
Que haja propostas de uma reinvenção do urbano é um fato, em iniciativas acadêmicas e públicas, tais como os planos diretores, as (re)democratizações dos conselhos deliberativos em órgãos municipais e estaduais, as novas teorias que tratam da diversidade entre as urbanidades e ruralidades, os trabalhos de parceria entre setores público e privado, o olhar sobre a periferia como parte da totalidade metropolitana, dentre outros esforços, são visíveis e crescem a cada dia.
É mister pensarmos a urbanosfera, em sua facticidade e fenomenicidade, e a ecumenópole, em sua projeção futurista, com um olhar mais agudo no que diz respeito aos rumos tomados por nossos modos de produção, excepcionalidades culturais e políticas, metateorias históricas e desmembramentos econômicos. À sobreposição de camadas de complexidade para a análise do fato e fenômeno urbano, soma-se, ainda, o esforço deste detour analítico, de forma a não estancar a visão sobre o urbano como processo e à cidade como recorte, necessário em suas limitações, para que possamos melhor engendrar nossos recursos de compreensão da vida nas cidades.
Referências
BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
DAVIS, Mike. Planeta Favela. Trad. Beatriz Medina. São Paulo: Boitempo, 2006.
DOXIÁDIS, Constantínos Apóstolos. Ecumenopolis: Tomorrow’s City. In: Encyclopaedia Britannica, Inc., p. 1-34, 1967.
LE CORBUSIER. A Carta de Atenas (versão de Le Corbusier: tradução de Rebeca Scherer). São Paulo: HUCITEC: EDUSP, 1993 [1933].
LE CORBUSIER. Planejamento Urbano. São Paulo: Perspectiva, 2008.
MARINETTI, Filippo Tommaso. Manifesto Futurista de 1909. Disponível em: http://www.espiral.fau.usp.br/arquivos-artecultura-20/1909-Marinetti-manifestofuturista.pdf. Acesso em: 29/03/18.
MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
NAZÁRIO, Luiz et al. (Org.). A cidade imaginária. São Paulo: Perspectiva, 2005.
PAQUOT, Thierry. Homo urbanus. Paris: Essai Éditions du Félin, 1990.
SACRE, Pierre-Etienne. Réflexions sur le dépaysement. In: Annales de philosophie et des sciences humaines, n. 7-8, p. 111-115, 1995.
SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio G. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.


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