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Mundos vazios: pandemia Covid-19 como istmo da intencionalidade do Dasein

  • Foto do escritor: Gilvan Araújo
    Gilvan Araújo
  • 12 de ago.
  • 10 min de leitura

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

Em 15 de março de 2021 foi realizada uma caminhada por entre passagens, prédios, praças e algumas poucas pessoas da Cidade Universitária, na Universidade de São Paulo. A ocasião e situação justificaram tal exercício ôntico-ontológico do caminhar pelo campus: a pandemia do Sars CoV-2, causados da enfermidade COVID-19, pelo menos desde o final de 2019. Um ano antes, em 2020, um percurso similar foi realizado no campus, com o objetivo de conhecer melhor o lugar no qual seria efetuado o estágio de pós-doutoramento, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. E tão logo a caminhada terminara, o vírus continuou sua sina, em variantes, ondas, impactos, aprendizados e contradições na relação entre o uno e múltiplo sobre a alteridade e empatia pela dor e perda do outro acometido pela enfermidade global.

É possível se colocar na projeção intencional de cada ato do conhecimento, emoção, pensamento, memória ou percepção, tentar apreender, mesmo que de modo efêmero o infindável ôntico da facticidade e, mais que isto, frenar os sentidos e predicações em cada um desses entes, para se tornar possível o perceber, pensar e sentir o ser. Somos o Dasein, o ser situado, portamos e estamos na abertura do Ser pelo ser dos entes, uma dádiva e condição única dentre todas as demais circunscrições ônticas que nos definem e cercam, como abertura ao (in)finito com e pela linguagem, abertura ao mundo em seu des-velar-se como existente à existência que nele permeia em habitação, essencialização, singularização e pensamento (GMEINER, 1998; STEIN, 2001).

 

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

As imagens registradas vão ao encontro do ser-em como ser-no-mundo de Heidegger (2008), um exercício de ir ao encontro do entremeio dos planos ôntico e ontológico. O outrora turista da metrópole sul-americana se transforma em viajante da paisagem agora vazia pelo efeito do vírus, e as emoções, sensações e percepções são emanadas da facticidade e encontram na consciência e pensamento seu processamento como dúvida, inquietação e efêmeras tentativas de compreensão:

 

O ser-em, ao contrário, significa uma constituição de ser da presença e é um existencial. Com ele, portanto, não se pode pensar no ser simplesmente dado de uma coisa corpórea (o corpo vivo do humano) “dentro” de um ente simplesmente dado. O ser-em não pode indicar que uma coisa simplesmente dada está, espacialmente, “dentro de outra” porque, em sua origem, o “em” não significa de forma alguma uma relação espacial desta espécie; “em” deriva-se de innan-, morar, habitar, deter-se; “an” significa: estou acostumado a, habituado a, familiarizado com, cultivo alguma coisa; possui o significado de colo, no sentido de habito e diligo. O ente, ao qual pertence o ser-em, neste sentido, é o ente que sempre eu mesmo sou. A expressão “sou” conecta-se a “junto”; “eu sou” diz, por sua vez: eu moro, detenho-me junto… ao mundo, como alguma coisa que, deste ou daquele modo, me é familiar. Como infinitivo de “eu sou”, isto é, como existencial, ser significa morar junto a, ser familiar com. O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da presença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo. (HEIDEGGER, 2008, p. 100).

 

O lugar que se volta, fora do tempo que se foi, está vazio, silencioso de sentido, o Em-si em estado puro. O vivido per-passou, a emoção permanece como memória, e essa lembrança vencerá a duração, a rocha e o vento. Sim, ali estive, fui o estado de mim em pleno ser, naquele momento, único e irrepetível.

 

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

Mas do pensar, agir, sentir e perceber do esvaziamento permanece a predicação, intenção e significação, e o Para-si, que é a facticidade em pulsação do seu devir pela diversidade ôntica, eclode, aos poucos, no ecoar do vento, nos habitantes ou transeuntes que vão e vem, na resiliência do lembrar e memorial e o tanto quanto de imaginário puder nos ultrapassar e transbordar.

 

O ser do Para-si é uma aventura individual, e a escolha precisa ser escolha individual de ser concreto. Isso vale, como vimos, para a situação em geral. A escolha do Para-si é sempre escolha da situação concreta em sua incomparável singularidade. Mas isso também vale par ao sentido ontológico dessa escolha. Ao dizermos que o Para-si é projeto de ser, não significa que o ser-Em-si que ele projeta ser constitua uma estrutura comum a todos os existentes de determinado tipo: seus projetos, como vimos, não é de forma alguma uma concepção. Aquilo que projeta ser lhe aparece como uma totalidade eminentemente concreta é este ser. e, sem dúvida, podemos prever nesse projeto possibilidades de um desenvolvimento universalizador; […] Este ser concreto do qual projeta ser o fundamento, não podendo ser concebido, como acabamos de ver, pelo de ser concreto, tampouco poderia ser imaginado, pois o imaginário é nada, e este ser é eminentemente ser. é necessário que exista, isto é, que seja encontrado, mas que esse encontro se identifique com a escolha feita pelo Para-si. (SARTRE, 2008, p. 729-730).

 

E, sim, mesmo que Husserl (2008; 2020) por meio de sua epoché almeja a ascensão ao conhecimento puro do eu transcendental abdicando de todos os juízos possíveis em relação a si mesmo, o outro e o mundo, ainda é o no plano fático que temos a nossa experiência no mundo, como devir da existência, tal como reitera Merleau Ponty (2006). O vazio de ruas, praças e avenidas formam a unidivesidade à qual todos os atos intencionais possíveis da consciência, e do corpo, poderão ter contato pela (in)finitude do mundo.

 

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

A pandemia intensifica a experiência do vazio da espacialidade e habitar, em constatação e contradições, como ocorre no Brasil e várias outras partes do mundo, onde a empatia, ignorância ou desinteresse chocam-se entre. O indivíduo torna-se o catalisador de um fluxo total da universalidade por sua singularidade e especificidades das experiências do viver cotidiano:

 

Se fosse possível uma consciência constituinte universal, a opacidade do fato desapareceria. Portanto, se queremos que a reflexão conserve os caracteres descritivos do objeto ao qual ela se dirige e o compreenda verdadeiramente, não devemos considerá-la como o simples retorno a uma razão universal, realizá-la antecipadamente no irrefletido, devemos considerá-la como uma operação criadora que participa ela mesma da facticidade do irrefletido. É por isso que a fenomenologia é a única entre todas as filosofias a falar de um campo transcendental. Esta palavra significa que a reflexão nunca tem sob seu olhar o mundo inteiro e a pluralidade das mônadas desdobradas e objetivadas, que ela só dispõe de uma visão parcial e de uma potência limitada. E por isso também que a fenomenologia é uma fenomenologia, quer dizer, estuda a aparição do ser para a consciência, em lugar de supor a sua possibilidade previamente dada. (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 95-96).

 

E é preciso ir além, inserir o devir, a dialética e a contradição, mesmo na beleza ou desinteresses da contemplação do Em-si por ele mesmo. No mesmo dia de 2021, na prévia do flanar por entre os braços de caminhos da Praça do Relógio da USP, houve uma ida a recantos paulistas acometidos pelos impactos pandêmicos, bolsões de pobreza, carência social e pontos cegos do mínimo e insuficiente de políticas públicas de saúde pública, mesmo antes da chegada do Sars CoV-2, em Carapicuíba, Brasilândia e comunidades de Pirituba, porque São Paulo, no êmulo do sertão rosiano, está em toda parte, uma toda parte, que também ela é cheia e no vazio(s) e preenchimento(s) pelo devir-vida do Dasein em sua acontecência e contradições (SILVA, 1997a; 1997b).

 

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

       O em-si é indiferente à existência como Dasein, o ser-aí, posicionado em sua situação (in)finita no mundo, que também o torna único em sua multiplicidade e liberdade de ser a si. A intencionalidade subjaz o ser-em como ser-no-mundo, a menos que a intelecção, percepção, imaginação e emoções encontrem-se no meio do caminho entre a facticidade e fenomenicidade, então lá as coisas e o mundo permanecerão, habitados ou não, pensados ou não, percebidos ou não, sequer imaginados: “O ser imanente é, portanto, indubitavelmente ser absoluto no sentido de que ele, por princípio, nulla “re” indiget ad existendum. Por outro lado, o mundo da “res” transcendente é inteiramente dependente da consciência, não da consciência pensada logicamente, mas da consciência atual.” (HUSSERL, 2008, p. 115). O imanente em sua abertura ao infinito garante o toque à silhueta do transcendente, é o intermezzo necessário os vividos intencionais husserlianos, equivalentes conceituais do ser-aí de Heidegger:

 

Unicamente por atos de experiência reflexivos sabemos, algo do fluxo de vividos e de sua necessária referência ao eu puro; portanto, unicamente por eles sabemos que o fluxo de vividos é um campo de livre efetuação de cogitações de um único e mesmo eu; que todos os vividos do fluxo são vividos ele, justamente porque ele pode olhar para eles ou, “por intermédio deles”, para algo estranho ao eu. Convencemo-nos de que essas experiências conservam sentido e legitimidade também enquanto experiências reduzidas, e apreendemos a legitimidade de experiências dessa espécie em generalidade de essência, da mesma maneira que, paralelamente a isso, apreendemos a legitimidade de visões de essência referidas a vivido em geral. (HUSSERL, 2008, p. 173).

 

Apresentam-se imagens da paisagem vazia, mas é o nada também paradoxal, por já pensado como tal, preenchido por seu conteúdo de oco, abandono, solidão ou transpassar-se por outros vividos intencionais. Novamente, é a experiência intencional que permite até mesmo a reflexão sobre o pôr-se perante o sentir o esvaziamento, em meio (in)visível presença das contradições e demais singularizações dos efeitos, ou não, da pandemia julgada por outras consciências em seu ser-em.

O mundo é o mesmo, a imanência lá está, a transcendência de igual modo ali permanece, a abertura como atitude intencional é a escolha a ser realizada, mesmo que em um instante, o mais breve que seja: “Toda vivência intelectiva e toda vivência em geral, enquanto é realizada, pode ser transformada em objeto de um intuir e de um apreender puros, e nesse intuir é doação absoluta. É dado como um ente, como um isto-aí, de cujo ser não há sentido algum em duvidar.” (HUSSERL, 2020, p. 87). Naquele pequeno recorte escalar da extensão e duração a lugaridade eclode juntamente com a paisagem inventada pela pelo ato intencional, a partir de sua posição privilegiada no istmo ôntico-ontológico da existência como Dasein e o mundo, como ser-em mesmo na ausência (CAUQUELIN, 2007; MARANDOLA, 2020). Quando mais nada está presente, o não-ser dissimula-se como ser, preenche de esvaziamento o imponderável do ser em seu absoluto. No des-aparecer-se de si-no-mundo há um (re)encontro com o próprio ser no limiar com nada, o silêncio, o caminhar e a exasperação entre angústia e satisfação deflagram o em embate de uma condição única de (in)compreensão: “O que se chama aparição é isso mesmo: é o “tudo desapareceu” que se torna, por sua vez, aparência.” (BLANCHOT, 2011, p. 277). E continua o autor afirmando que: “E a aparição diz precisamente que, quando tudo desapareceu, ainda existe alguma coisa: quando tudo falta, a falta faz aparecer a essência do ser que é de ser ainda onde falta, de ser enquanto que dissimulado…” (BLANCHOT, 2011, p. 277).

 

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

O grão ôntico, como (re)tensão do próprio ser está em toda parte, numa palavra, som, cor, gesto ou pensamento: “A estátua glorifica o mármore, o quadro não é feito a partir da tela e com ingredientes materiais, é a presença dessa matéria que, sem ele, permaneceria escondida de nós.” (BLANCHOT, 2011, p. 243). O ser humano e a linguagem, como a casa do Ser, eclodem como o núcleo por meio do qual o próprio sentido se faz possível, ou não: “O poema não é feito com ideias nem com palavras, mas é aquilo a partir do qual as palavras tornam-se sua aparência e a profundidade elementar sobre a qual essa aparência se abre e, entretanto, se fecha de novo.” (BLANCHOT, 2011, p. 243). O elementar o devir existencial nos escapa, (des)percebemo-lo, constantemente.

O caminhar por entre o campus vazio da Universidade de São Paulo aloca-se com um exercício deste parar, contemplar a si, o outro e o mundo, mesmo que em muitas dimensões do preencher-se de sentido nada ali houvesse, o flanar sugerido por Silva (2020) e Chaveiro (2018). Como afirma Maldonato (2001, p. 131) existir é presentificar-se, tornar-se e assumir a condição de Dasein, o ser-aí sendo em seu estar como abertura ao ser: “É na ‘presença’ que a retenção do passado e a protensão em direção ao futuro se soldam indissociavelmente. O presente não é um ponto, mas um tempo dilatado, que permite continuamente esse jogo articulador. Nesse tempo dilatado, há uma coexistência relacional, uma forma da existência.”

 

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

            (In)finitude e linguagem unem-se em difícil e complexo labor: transformar o que é sentido, percebido, imaginado, devaneado e experienciado em experiência vivida pela consciência e corporeidade. Admite-se o ponto de partida da epoché husserliana, de colocar-se em disposição de suspender quaisquer predicações do mundo vivido, intencionalmente.

Ao mesmo tempo, é possível questionar-se, o último passo da redução como recurso ao alcance puro do plano transcendental e universal seria possível? A partir do recorte específico de uma experiência individual e coletiva que impacta diretamente a vida, cotidiano, ações, pensamentos, decisões, emoções e sensações de todo um mundo… A concordância com as ponderações de Merleau-Ponty se torna ainda mais latente e sedutora de se estabelecer.

O pós-pandêmico resiste ao seu esperado chegar entre nós. A inquietude do sentir e perceber cada coisa em si mesmo e o próprio eu como ente diferenciado foi contínua e ininterruptamente. Sente-se a si, a distância e ausência do outro, o desinteresse pelo existir e existência e, ao mesmo tempo, o devir prossegue seu curso, transborda e supera.

 

Fonte: Imagem efetuada pelo autor (2021).

 

Referências

 

BLANCHOT, Maurice. Anexo I – A solidão essencial e a solidão no mundo. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

 

CAUQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. Trad. Marcos Marcionilo. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

CHAVEIRO, Eguimar Felício. Espaço, Sujeito e existência: mediações entre Geografia e Literatura - o exemplo da representação de Goiânia. Revista Geografia, Literatura E Arte, v. 1, n. 2, p. 74-89, 2018.

 

GMEINER, Conceição Neves. A Morada do Ser: uma abordagem filosófica da linguagem na leitura de Martin Heidegger. Santos/SP: Leopoldianum, 1998.

 

STEIN, Ernildo. Compreensão e Finitude: estrutura e movimento da interrogação heideggeriana. Ijuí: Editora Unijuí, 2001.

 

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2008.

 

HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura. Trad. Márcio Suzuki. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2008.

 

HUSSERL, Edmund. A ideia de fenomenologia: cinco lições. Trad. Marloren Lopes Miranda. Petrópolis: Editora Vozes, 2020.

 

MALDONATO, Mauro. A subversão do ser: identidade, mundo, tempo, espaço: fenomenologia de uma mutação. Trad. Luciano Loprete e Roberta Berni. São Paulo: Editora Fundação Peirópolis, 2001.

 

MARANDOLA JUNIOR, Eduardo. Lugar e Lugaridade. Mercator, Fortaleza, v. 19, apr. p. 1-12, 2020.

 

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. trad. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 2006. (Tópicos).

 

SILVA,   Armando   Corrêa   da.   Consciência   espacial. In:   Geografia   e mudança  cultural.  São  Paulo,  1997a.  (Apostila  destinada  ao  curso  de  Pós-Graduação em Geografia da FFLCH-USP), 1997a.

 

SILVA,  Armando  Corrêa  da.  Fenomenologia  e  cotidiano. In:  Geografia  e mudança   cultural.   São Paulo.   (Apostila   destinada   ao   curso   de   Pós-Graduação em Geografia da FFLCH-USP),1997b.

 

SILVA, Valéria Cristina Pereira da. A construção da temporalidade e as novas sensibilidades em Goiânia: Imaginário e Literatura. Ateliê geográfico (UFG), v. 14, p. 226-247, 2020.

                   

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