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Da orla ao ão: (des)medido mundo

  • Foto do escritor: Gilvan Araújo
    Gilvan Araújo
  • há 5 dias
  • 7 min de leitura

Na trilha de leste a oeste pelo estado que abriga a Soterópolis, um desejoso e arriscado intento, pôr-se diante do Em-si da facticidade em sua totalidade, mudo e mouco eclodir do sentido em seu devir máximo. Des-emerjo em ingrata querência da busca, no intermezzo do ão e a orla, imensidões e santidades. Há muito, tanto, que se faça a tentativa. Todas as palavras do mundo não sustentariam o Ser, detentor de tantos nomes e antonímias e sinônimos, divindade dêitica e silogismo de difícil apreensão, guardador de todas as horas, eremita atemporal.


Figura 1: Praia do Rio Vermelho em Salvador.


Os dizeres apenas o tocam, esmaecem sua silhueta em cantos, hinos, elegias, versos, epopeias, sussurros e brados; trata-se de uma derrota descomunal, digna da mais ilustre das torres idiomáticas já versada por mensageiros do passado inalcançável, colosso memorial. Se esta é a era do re(nascer) do espaço, então que haja o regozijo para tal condição tão única e especial. Mais que o tempo, a espacialidade oferece o tom da (in)finitude em experiência mais proximal e palatável, de forma mais sutil que o traspasso cronológico, secularmente inquietante. O transmute da espacialidade em mundo explica-se, em diferentes nomes, dirão que é a própria Natureza, o Deus em toda parte, o Ser em toda parte, metonímias do estar aqui, acolá, em todo e cada lugar criado e não havido.


Figura 2: Praça do Forte de São Pedro, Salvador


De qualquer forma, aqui e lá estão, tudo e todas as coisas, material e imaterialmente, no e pelo tempo, espaço e no lembrar do primeiro que assim o fez, quebrando o silêncio elemental, e (se)criando o(um) mundo, o primeiro e último dos firmamentos, labirínticos. O flanar do andarilho percebe a res-extensa em sua magnificência de ser, experiência muito mais entre logradouros citadinos, mas há igualmente o caminhar por outras paragens, ora frígidas ora tórridas, cada qual com sua estética própria, imensas ou minúsculas, do arroio em último fio d´água estacional e o mais alto dos picos das serrarias, silentes da palavra, mas não menos cheios de vozerio em estado puro, pios, estalos, sopros, guinchos, estrondos e um caleidoscópio de sons, resilientes aos espaços vazios, etérea forma abandonada no primeiro lumiar do dizer.

Este silêncio soturno diz a essência do estar em vários lugares por uma trilha, assim como, no outro extremo, o palavrório do viajante (en)canta a muitos, como trova dos aconteceres em hiperbólicas digressões, entre o mito e o vivido. Temos, percebemos e somos um mundo, esse mundo, fático, finito, incompreendido em todos os detalhes e nuances de todas as suas pequenas coisas visíveis e invisíveis.


Figura 3: Margem do Rio Paraguaçu, Iaçu-BA


O cuidado de si passa pelo reencontro com cada ponto de (des)encontro com o todo que está ali, logo ao alcance da mão e lá, por detrás dos montes, no além-coisa-qualquer, parte que ainda desconhecemos, mas também no cerrar os olhos e lembrar do pensamento ou sentimento matinal, reside próximo e cheio de contornos, feixes do algo, do querer mais distante, nebuloso, com preenchimentos do sido sem necessariamente ter acontecido, mas vivido em plenitude do momento feliz ou triste, mas duplamente marcante como grafia no mundo criado, da primeira locução ao último calar-se.

Somos a permanência do Ser, seu catalisador enunciativo, envolvendo-o em palavras para tentar contê-lo, apetecido jogo do poder divino pelo verbo. Deus está em toda parte, o Ser está em toda parte, o Nada é o tudo que ainda não foi ou deixou de sê-lo um dia e, enfim, o Sertão mostra-se em toda parte, na voz do poeta e do guardador dos postulados da ciência, e o rosiano leitor. Em ambos os casos, observa-se o gládio ou torneio fraseológico da linguagem em dizer o Ser. Desejo irrefreável do arauto, que em tanto tentar fazê-lo, queda-se muito mais em encontro à fonte no silêncio que em alguma não-dita palavra.

Sertão, esse ubíquo, oca ideia não ideal do empírico infinito, digressivo em circunstância, alcançado pela situação ocasional, conter uma variada paisagem e rebelar-se a quaisquer limite ou fronteira que o busque determinar para outrem que não a sua própria incerta dimensão, convite sedutor ao percurso de uma tripla dimensão onto-ontológica da existência composta pelo eu, o outro e o mundo nos perpassa, ultrapassa, perfaz e nutre, em ausência e presença de sentido, contínuo e inquietante (des)velar-se.

Se esse lugar de tantas folhas e areias, águas e emoções sou eu como o mundo em acontecer, então os estares do ser emanam em cada acaso, detalhe, mirada, degustação, sentir, pensar, um demorar-se na mata branca, no verde sazonal e o sol a pino. Solidão impossível, que seja dividido o momento comigo mesmo, esse Outro, também elemental, que vem e volta, na tarde do trabalhar, na distração do cozinhar, constante visitante do sonho, personagem de todas as máscaras, fosso e libertação de todos os sentires, translúcidos ou opacos.


Figura 4: Mandacaru na cidade de Iaçu-BA


Que venha tantas quantas forem as léguas, os chãos e céus, no casebre recolhido da chapada, ao desenlace acordo a luz e escuridão no sombrear do sopé desgastado, lá estará, uma pessoa, um sujeito, o primeiro e último, o ficou e espera, reside no mundo e o resguarda do ciclo sem fim de encontrar graças ao que não se cabe em mostrar como o que é, a todo instante. E que se fosse possível, ainda assim estaria no incompleto do solipítico devaneio, descolado permanecer no aqui e agora, como dádiva, dúvida e danação do (in)finitizar-se a cada novo pulso. Respiro, sinto, chega um novo inferir, a palavra certa, a perco, se vai como mais cedo, o exprimido presente passou de novo, não pude acompanhá-lo em suas voltas e voltas por todos os estares nos lugares do mundo.

Antes de lá estar, no interior sem fim, partiu-se do beiral edênico outrora mitológico, de sonhos do escapismo de si e do mundo, no sal e pedra em cada quebra do mar. A estalaria da água que arrebata a rocha na praia, cisalha fática de enunciação e velamento do Ser em si mesmo, novamente, vem o demorar-se e des-mergir, apreendido por essa sensação, percepção, prenhe e cheia de predicações da inteligibilidade que insiste na mimese, ingênua cladística da barça, e mesmo quando permitido a expressão pela arte e literatura, em todos os casos, amontoadas ficam as desmesuras da (in)compreensão entre a aparência e a forma frente às dermes da identidade ou diferença pulsantes em sua baila sem fim, como reincide Amado tantas e tantas vezes.

Antes do ão do sertão será preciso cruzar os elísios sopros, cabos e tormentas, não somente atlânticas, outros mares somar-se-ão ao persistente desafio do perder-se índigo. Mais que uma espessura desintegrada de sua silhueta metafísica. Objeto, coisa, ente, corpo, paisagem… e, especialmente, experiência do suspender-se em percepção, sensação e pensamento com e pelo mundo, para chegar e escapar de si e consigo, e quem dera partilhando do mesmo momento com o alelo vivencial em comunhão da alteridade, mesmo que breve, mas única, numa noite estrelada, pôr-do-sol, beira do rio ou diálogo ao caminhar.

Um velho barco com a água fluvial a dominá-lo, o arbusto ainda verde ao chamado inverno regional de um agreste recém-terminado, o pensar em (des)encontros dantes ocorridos e aqueles por existir, o pequeno grão de areia que encontra sua essência com todos os outros grãos de um litoral dos mais arqueanos em todo o mundo; cada coisa, a concreta e abstrata, mata fechada de velamento do sentido, transpassagens.

Escadarias multicor de uma alteridade que atravessa o opaco de um ocre metal oxidado as várias presenças do concreto metropolitano. Em cada nova pequena pedra, banco, árvore, criança que passa correndo, verdejar orvalhado da grama ou a roupa que já descansa seca no beiral e os sentimentos, tantos e de todos os tipos e intensidades, sensitivos, temporais, perenes ou efêmeros. Vasto mundo, inacabável em nossa relação com sua imensidão. Faltariam sim, dois outros passos, cursos de uma trilha-tríplice: o Outro e a mim mesmo, esse eu e seu ego, objetivações possíveis, incansáveis do devir-vida. É mais que um jogo e supera a circunstância, mas talvez possua traços do destino e resista ao miradouro (in)finito.

Caberia o particular universo de um transeunte em rubras túnicas, como o último raio solar de uma tarde à beira-mar, ou a busca pelo laço fraternal ainda existe por resistência de recordações em fotografias cada vez mais gastas. Sincronia e diacronia das temporalidades costuram a relação das três faces do Ser com o Si, singular e permeado de particularidades partilháveis e indivisíveis, percorrido por muitos estares, esses sim infinitos perante o que poderia, mas jamais o é, um único estado de ser disperso no sulco transcendente de mil paisagens no torneio sígnico que estremece a mimese, entrega o nu do claro-escuro residido ali, bem na fresta da dérmica imanência porosa. Fica o Si, ainda recôndito, silencioso para nós mesmos, sussurrando incansável os pensares, imaginares e perceberes. Todos os litorais não o supririam, todos os espinhos cactáceos não o afetariam.


  Figura 5: Pé de umbu em fazenda na cidade de Iaçu-BA


A unicidade rósea do broto floral o encanta, mas passa; a brisa forte que chega de outro continente o atravessa, leva pensamentos ao longe, mas estes, junto aos sentimentos arraigados em seu nascituro (i)rracional também retornam.  Si do Eu que reside pleno em lugar nenhum, recôndito refletir, porque também é Ser, e o fala, seja em palavras, cores, gestos, sabores e silêncios, o emana do primeiro ao último suspiro, incontrolável em sua volúpia de sentido potência esvanecendo as mais cintilantes pulsações da Vontade de ser.

O exercício de geoesteta contribui nas ranhuras e rasuras de cada assertiva sobre o lá ou cá, não cabendo uma sinonímia para cada traço do que é vivido e experienciado, porque são também percepções únicas, sensações e pensamentos de constructos circunstanciais de raro diálogo, em ordem ou caos, em um mundo, esse mundo, tão cheio de si, de Leste a Oeste, do estuário ao arroio sazonal do agreste.

Ora as embaúbas e restingas, em embarcações e inconfundíveis gêneros arecales e muda o solo, o chão e o ar, entra o rósea-rubro e branco-seco, mas há o verdejante arbusto no inverno regional, reino xerófito, também multicor, segue o caminho para outros confins, não há fim, vencidos foram todos os ventos da roldana geográfica.


Figura 6: Pôr-do-sol em Iaçu-BA


A essência persiste no além-mundo, assim como nossos estares em todos os lugares e incorporações às deidades, embate eviterno entre razão e emoção da conta ao conto, narrativas do ir e vir, em todas as durações e extensões. Se voltarei, há a certeza que sim, havendo novamente uma perspectiva pendular do percurso, aguardando maturar o perceber do devir-vida. Sim, haverá mais por onde, mesmo sem quando, esse percorrer incessante.

 

 

 

 

 

 

 

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