top of page

Ex Machina: a senciência da criação

Foto do escritor: Gilvan Araújo
Gilvan Araújo
24 de jun.
5 min de leitura

Atualizado: 27 de jun.


“If you’ve created a conscious machine, it’s not the history of man. That’s the history of gods.” (Caleb)


O ser humano foi agraciado com o mais poderoso intelecto que a natureza foi capaz de criar ao longo de bilhões de anos de evolução. A partir desta condicionalidade particular, nos transformamos no universo tomando consciência de si, ou, ao menos, tentando efetuar este movimento. Se um advento racional de tal grandeza é plausível, acaba por ser inevitável que batamos na porta dos limites deste poderio, em meio às questões morais, tecnológicas, vitais e políticas.

Com direção e roteiro de Alex Garland, a obra pode ser considerada um caldeirão de influência da própria sétima arte, como THX 1138 (1971), Jurassic Park (1993), Animatrix (2003), Splice (2009), Her (2013), A Pele que Habito (2011) e Sob a Pele (2013). Além disso, o longa se embasa em uma mitologia clássica do Ocidente, que é a ascensão e queda de Prometeu entre deuses e homens, além de obras literárias consagradas como Frankenstein: ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley (1818), Eu, Robô de Isaac Asimov (1950) e O Caçador de Androides de Philip K. Dick (1968).  

Ex Machina faz parte de uma vertente de ficções científicas que não se voltam para a ação desenfreada, optando por inserir em seu desenvolvimento debates de maior profundidade, normalmente com temas existenciais e reflexivos, recebendo a alcunha de ficção conceitual, justamente por esta opção de narrativa internalista.  


A reificação do arquétipo de Frankenstein  

Sobre o protagonismo feminino de Ex Machina, é interessante delegar algumas palavras à personagem de Alicia Vikander, Ava, devido à sua importância e ao seu impacto em todo o enredo do filme. O trabalho da atriz é primoroso; por meio da tonalidade da voz, trejeitos, olhares e posturas, há uma interferência direta na imersão da obra. Pela interpretação de Vikander podemos apreciar toda a potência da reificação do arquétipo de Frankenstein (e de Prometeu) ao longo de todo o filme, até o momento da rejeição senciente de sua condição como criatura positrônica em seu arrebol.  

A mulher nesta simbologia criatura/criador ainda pode ser vista em filmes como A Experiência (1995), O Quinto Elemento (1997) e Alien: A Ressurreição (1997). Em todos estes filmes, a figura da mulher é fortalecida como aporte para o arquétipo prometeico. Em outras palavras, a partir da figura feminina, há este questionamento sobre a objetificação da mulher (e do ser humano em geral), sua transformação em instrumento do progresso e a falta de criticidade do desenvolvimento científico e da racionalidade humana.  

Há ainda uma sutil crítica feminista, principalmente pela inserção do plot twist de Kyoko (Sonoya Mizuno) a certa altura do filme. Tal criticismo está ganhando força ano a ano ultimamente, procurando mostrar a maneira como personagens femininas podem ser e são estereotipadas em obras fílmicas, principalmente as de grande alcance de público, como os blockbusters. Outros exemplos deste questionamento do papel da mulher na sétima arte são Alien: O Oitavo Passageiro (1979), Mad Max: Estrada da Fúria (2015), Sob a Pele (2013) e, antes destes, Kill Bill I e II (2003-2004).  

Propositalmente, pela tríade de protagonistas, o filme não passa pelo Teste de Bechdel, o que causa certa claustrofobia testosterônica em certos momentos, mas que, ao mesmo tempo, fortalece a subida, o desenvolvimento e os rumos que as representantes do gênero escolhido para os protótipos têm no terceiro ato de Ex Machina.

Outras referências vigentes no filme vão dos códigos de interpretação linguística de Ludwig Wittgenstein ao realismo destrutivo da tecnologia e ciência apontado por Robert Oppenheimer – em citação direta sobre o deus da morte em razão do engodo da bomba atômica –, passando pelo ponto inicial da trama com o Teste de Turing, e a já clichê inserção da consciência no autômato por meio de uma carga dramática em gradações escalares da consciência deste novo ser; argumento este em que outras tentativas recentes como Robocop (2014), Autómata (2014) e Chappie (2015) falham miseravelmente, na esteira do sucesso de Ex Machina.


A trindade

Todo o desenvolvimento narrativo de Ex Machina gira em torno de seus personagens principais, formados por Alicia Vikander, Domhnall Gleeson e Oscar Isaac, que interpretam, respectivamente, Ava, Caleb e Nathan. A interação dos personagens uns com os outros dá o tom do filme, as imbricações dos seus diálogos, as “sessões” de Ava para com seu criador e visitante, enfim, toda a riqueza da obra, sua espessura dialógica. Deste modo, não soa estranha a carga de sentido que os protagonistas do longa carregam em suas representações, desde o figurino, expressões corporais e faciais, até a escolha de seus nomes, conforme observado a seguir:

  • Ava: O significado do nome é o mais explícito, trazendo a referência do Jardim do Éden consigo. Além disso, a fala pausada, calma, inocente, curiosa e questionadora ajuda a criar uma empatia com os apreciadores da obra. Apesar de a virada do fechamento do filme ser plantada paulatinamente e, até certo ponto, ser esperada a qualquer momento, quando cai a sua cortina, Ava não faz com que transpareça um julgamento maniqueísta sobre suas decisões. De certa forma, apesar da corrupção moral – que pela linguagem da história seria sua condição de tornar-se uma de nós –, sua integridade parece permanecer em grande medida até a última tomada de câmera da obra.

  • Nathan: O nome de Nathan, em sua etimologia, representa o possuidor de uma dádiva divina, um dom, e neste caso, ele acaba por se configurar como o próprio Deus Ex Machina, que, ao corromper este deus ao mimetizá-lo como criador, paga com sua vida por esta ação e decisão pecaminosa. Outros simbolismos do personagem são: sua propriedade selvagem (local da criação), o paraíso, o apelo físico, inquisitorial e imponente. E apesar de seu laboratório manter-se externamente em um estado de manutenção edênica, não deixa de ser curiosa a questão de ser quase um Hades grego como ambiente de criação de seus experimentos, novamente, na correlação helênica e do Dr. de Shelley.

  • Caleb: Pela mitologia cristã, é aquele enviado para espionar Canaã e retornar para seus iguais após tal empreitada. No filme, o personagem de Gleeson possui um ar angelical e frágil fisicamente, ao contrário do seu contratante ególatra. Além desta característica, Caleb carrega o arquétipo narrativo do fio de Ariadne, nos apresentando os ambientes e demais personagens durante a projeção. No fim das contas, sua coragem se transforma num frágil simulacro de sua insegurança e ingenuidade, servindo como ventríloquo para os demais protagonistas.

Como visto, nos nomes dos protagonistas, o extrato de simbologias, significados e referências culturais é claro e inevitável. A tríade perpassa sua interação em 7 dias, nos quais e pelos quais todo o enredo irá se definir, do ambiente às falas, da direção de arte à direção, numa composição harmônica do próprio filme como criação singular.


O arbítrio entre o orgânico e o positrônico

Não há problema nos clichês; eles existem porque seu funcionamento atingiu tal grau de sucesso que chegaram a se repetir até atingir tal alcunha. No entanto, é possível utilizá-los recorrentemente: o monomito, o ciclo de superação do eremita, os círculos dramáticos e tragicômicos shakespearianos, os exercícios de quebra da quarta parede. Ou seja, as estruturas de enredo possuem bases de desenvolvimento precursoras, e assim continuará por muitos anos. No final, o que importa é a maneira como as bases de influência e inspirações são revisitadas e, neste caso, o cinema é talvez a melhor plataforma para este feito.

Dito isto, o nascimento de um clássico se dá, na maior parte das vezes, pela arte e proeza de se contar a mesma história com rara felicidade de independência criativa. No caso de Ex Machina, este é justamente o fenômeno ocorrido durante os minutos em que degustamos seus diálogos, padrões estilísticos e releituras míticas, morais, racionais e tecnológicas. Não é de surpreender que, em pouco tempo, seu lugar no panteão destas obras singulares estará garantido, tornando-se, ele próprio, um novo foco de diversificação e reprodução criativa para outras iniciativas da sétima arte.

E a pergunta ao final de Ex Machina é: o quão humana, moral e conscientemente Ava saiu de seu ambiente de criação?

Comentários


bottom of page